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Ser Pai na adolescência

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A paternidade convoca os adolescentes para ocuparem novos lugares, assumirem novos papéis e repensarem todos seus projetos de vida.

A adolescência não é apenas mais uma fase do desenvolvimento humano em que mudanças físicas e biológicas ocorrem. Trata-se, antes, de um processo em que o sujeito desperta de um período de latência e acorda para um mundo repleto de novas e possíveis realidades, anteriormente apenas idealizadas e fantasiadas. Assim, a adolescência não pode ser definida apenas como uma faixa etária que começa na puberdade e termina na vida adulta. Mais que isso, refere-se a um período de grande “turbulência”, tendo em vista o encontro do sujeito com o real do sexo.

A adolescência é o despertar das fantasias antes adormecidas, que “acordam” com todo o fulgor na puberdade. O adolescente “desperta” e verifica que o seu corpo infantil, antes assexuado, está sendo substituído por um corpo que, cada vez mais, o chama para o real do sexo e a reprodução, marcado pela primeira menstruação para as meninas e a primeira ejaculação para o menino.

Somado ao luto pelo corpo que está se formando, o adolescente passa ainda por um processo de luto pelo seu lugar e identidade infantil, obrigando-o a renunciar a dependência dos pais e assumir responsabilidades antes desconhecidas. Nesse sentido, o adolescente tem a difícil tarefa de adentrar o mundo dos adultos. Mas por esta entrada simbólica um preço há de ser pago. Adentrar o mundo adulto significa para o adolescente sacrificar sua condição de criança, com todos os seus benefícios, e lançar-se num mundo até então desconhecido, onde se está só, em busca da constituição de uma identidade e um lugar diante da sociedade.

Apesar de complexo e muitas vezes conturbado, o período de transição para a adolescência pode sofrer ainda influência dos eventos que ocorrem na vida familiar ou mesmo individual. Dentre estes eventos, destacam-se aqui as contribuições do fenômeno da paternidade no crescimento do adolescente.

Por muitos anos, a gestação na adolescência vinha sendo tratada apenas na perspectiva da adolescente grávida, desconsiderando-se os sentimentos, expectativas e reações do adolescente frente ao fenômeno da paternidade.

A notícia da gestação é recebida como algo inesperado, demonstrando que em nenhum dos casos houve planejamento. Assim, a gravidez é percebida como algo que adentra, invade “sem pedir licença”, questionando desejos, sonhos e afetos do jovem. Tal pensamento pode estar alicerçado em pelo menos dois aspectos: o primeiro ancora-se na vitimização do adolescente frente à paternidade. Nessa perspectiva, o jovem, sobretudo do gênero masculino, se percebe como uma vítima do processo, eximindo-se do seu papel e responsabilidades na concepção e paternagem da criança. Outro aspecto a ser considerado está atrelado ao sentimento de “despreparo” do adolescente para ocupar o lugar de pai, com todas as implicações sociais decorrentes deste processo.

A ausência de planejamento da gestação contribui para o surgimento de sentimentos de ansiedade, dúvida e medo por parte dos adolescentes, fazendo com que muitos ao serem informados da paternidade, utilizem mecanismos como a negação, a fim de enfrentar a situação inesperada.

O medo e ansiedade sentidos em relação à paternidade foram explicados tendo em vista o modelo do pai provedor muito presente em nossa sociedade. Nesta concepção, ser pai, em nossa sociedade, é ser o provedor, responsável financeiramente pelo filho, ficando os cuidados afetivos e morais com a mãe. E, como o jovem vai pagar esta conta, visto que ele depende financeiramente dos pais em todos os sentidos, para pagar todos os seus gastos, porque até este momento a única coisa que ele fazia era estudar.

Após a notícia da paternidade, outro conflito se forma, revelar aos pais o que está acontecendo, isto também gera angústia e ansiedade. Sabe-se que vão ocorrer inúmeras mudanças após esta notícia, tanto na trajetória pessoal quanto na posição do adolescente frente à sociedade. Muitos se tornam mais responsáveis, após refletirem a respeito do novo papel a ser assumido.

O discurso dos adolescentes aponta ainda para a paternidade como um divisor entre a adolescência e a vida adulta, configurando-se como um rompimento no processo de adolescer. Mais do que um fenômeno biológico, a paternidade convoca os adolescentes para ocuparem novos lugares, assumirem novos papéis e repensarem todos seus projetos de vida.

Deve-se considerar o papel que a família ocupa nesse momento, se mostrando ao jovem como um “esteio” para um fenômeno tão inesperado. Ressalta-se o papel da família como rede social de apoio para que a gestação na adolescência seja vivida da forma mais saudável possível, facilitando a construção e o desempenho da paternidade.

Conteúdo por: Drª Ginecologista Sonia Nicola